O Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer, que está de regresso ao Cinema São Jorge e à Cinemateca Portuguesa entre os dias 18 e 26 de setembro, anuncia agora a sua retrospetiva desta edição, intitulada “Resgatar Futuros: o cinema queer vê-se ao espelho”. O programa, apresentado em parceria com a Cinemateca Portuguesa e desenhado para celebrar os 30 anos do Queer Lisboa, irá desdobrar-se este ano entre os dois espaços do festival numa série de oito double bills, propondo um conjunto de filmes que, no seu tempo, procuraram construir utopias e que foram referências em termos de uma ideia de comunidade. Revisitam-se obras de cineastas maiores do cinema queer, entre eles, Cheryl Dunye, James Bidgood, John Greyson, Kenneth Anger, Kim Longinotto, Marlon T. Riggs, Lana e Lilly Wachowski, Lisa Cholodenko, Sally Potter, Su Friedrich, Ventura Pons e Yonfan. Ao todo, são 19 títulos, muitos deles inéditos no festival e recentemente alvo de restauros que lhes devolvem o seu estatuto de obras canónicas.
A abrir o programa, no dia 20 de setembro, apresenta-se a estreia do restauro conduzido pela Cinemateca Portuguesa da média-metragem “Fatucha Superstar – Ópera Rock… Bufa” (1976), de João Paulo Ferreira, ícone do cinema underground português, juntamente com a por muitos anos proibida curta-metragem “Scorpio Rising” (1963), de Kenneth Anger, enfant terrible do cinema experimental norte-americano. O par desta sessão é o filme de culto “Pink Narcissus” (1971), de James Bidgood, ex-libris da estética kitsch e do camp, a revisitar-se no mesmo dia no Cinema São Jorge.
No dia anterior, em jeito de prólogo e a anteceder a Noite de Abertura do festival, exibe-se, no Cinema São Jorge, “Word Is Out: Stories of Some of Our Lives” (1977), documentário pioneiro assinado pelo coletivo The Mariposa Film Group que à época do seu lançamento se tornou um emblema de activismo pela visibilidade e direitos da comunidade LGBTQIA+ nos EUA. Em diálogo direto, apresenta-se em estreia internacional, depois da primeira exibição no festival Frameline, a única nova obra do programa, “The Faggots & Their Friends Between Revolutions” (2026). A pastoral média-metragem do cineasta irlandês Paul Rice propõe uma adaptação do homónimo manifesto gay de 1977 do escritor e editor Larry Mitchell. Será alvo de duas sessões na Sala Rank, do Cinema São Jorge – especial pelos seus 21 lugares – na presença do realizador.
Outro destaque do programa é a double bill entre os clássicos de culto “Bound” (1996), das irmãs Lana e Lilly Wachowski (“The Matrix”), e “High Art” (1998), de Lisa Cholodenko (“The Kids Are Alright”), retratando inebriantes histórias de amor entre mulheres, coincidentemente ambas protagonizadas por personagens vizinhas. Da mesma década, anos noventa, propõem-se duas obras de temática trans situadas no continente asiático: “Bugis Street” (1995), do cineasta de Hong Kong Yonfan, ficção sobre trabalhadoras do sexo na mítica rua de Singapura, e “Shinjuku Boys” (1995), das britânicas Kim Longinotto e Jano Williams, documentário-retrato de três onabes japoneses, anfitriões trans masculinos num clube de Tóquio.
As fronteiras da identidade de género diluem-se na dupla “Orlando” (1992), de Sally Potter, adaptação do romance homónimo de Virginia Woolf, protagonizado por Tilda Swinton, e “Ocaña, Retrato Intermitente” (1978), do recentemente falecido realizador catalão Ventura Pons, documentário sobre o pintor andaluz e ativista contracultural José Pérez Ocaña na Barcelona pós-franquista. A liberdade sexual e o cruising gay do início dos anos 80 em duas capitais europeias são colocados lado a lado em filmes arrojados para o seu tempo: “L’homme blessé” (1983), de Patrice Chéreau, romance tintado de tragédia em Paris, coescrito com o autor Hervé Guibert e estreado em competição em Cannes, e “Taxi to the Toilet” (1980), de Frank Ripploh, comédia autobiográfica e explícita ambientada em Berlim Ocidental.
A cultura e historiografia negras revisitam-se com duas canónicas obras do cinema queer: “Black Is... Black Ain’t” (1994), derradeiro filme de Marlon T. Riggs, um tocante compêndio humanista que Riggs finalizou na sua cama de hospital, e “The Watermelon Woman” (1996), primeira longa-metragem de Cheryl Dunye, inteligente mockumentary sobre a representação da identidade negra lésbica na história do cinema, e vencedor à época do Teddy Award da Berlinale. O filme é precedido pela também autobiográfica curta-metragem “Spin Cycle” (1991) da norte-americana Aarin Burch, reflexão poética sobre o desejo e o processo criativo.
Por último, três filmes nos quais a componente ativista é chave: o documentário de espírito DIY “The Lesbian Avengers Eat Fire, Too” (1993), de Su Friedrich e Janet Baus, retrato do pioneiro grupo nova-iorquino reivindicador de visibilidade e direitos das mulheres lésbicas, aqui exibido com a curta-metragem “Greetings from Washington, D.C.” (1981), de Lucy Winer, documento histórico da primeira Marcha Nacional pelos Direitos de Lésbicas e Gays decorrida a 14 de outubro de 1979, em Washington DC, e filmado por realizadoras como Barbara Hammer ou Greta Schiller; e a fechar a retrospetiva, no último dia do festival, a comédia musical “Zero Patience” (1993), obra fortemente política do cineasta e ativista canadiano John Greyson, que analisa os mitos em torno das origens da sida.
Composto de exibições raras, o programa, em definitivo, olha para o passado para fazer um balanço das conquistas da comunidade e tentar procurar pistas para traçar as conquistas do futuro.
A programação completa do Queer Lisboa 30 é anunciada no início de setembro, e a do Queer Porto 12, a decorrer de 3 a 7 de novembro, no início de outubro.
FILMES ANUNCIADOS DO QUEER LISBOA 30:
RETROSPETIVA / “Resgatar Futuros: o cinema queer vê-se ao espelho”
Programa 0:
The Faggots & Their Friends Between Revolutions, Paul Rice (EUA, 2026, 40’)
Word Is Out: Stories of Some of Our Lives, Peter Adair, Nancy Adair, Andrew Brown, Rob Epstein, Lucy Massie Phenix, Veronica Selver (The Mariposa Film Group) (EUA, 1977, 132’)
Programa 1:
Fatucha Superstar – Ópera Rock… Bufa, João Paulo Ferreira (Portugal, 1976, 43’)
Pink Narcissus, James Bidgood (EUA, 1971, 68’)
Scorpio Rising, Kenneth Anger (EUA, 1963, 28’)
Programa 2:
Ocaña, Retrato Intermitente / Ocaña, an Intermittent Portrait, Ventura Pons (Espanha, 1978, 85’)
Orlando, Sally Potter (Reino Unido, Rússia, Itália, França, Países Baixos, 1992, 94’)
Programa 3:
Bugis Street / Yao jie huang hou, Yonfan (Singapura, Hong Kong, 1995, 101’)
Shinjuku Boys, Kim Longinotto, Jano Williams (Reino Unido, 1995, 53’)
Programa 4:
Bound, Lana Wachowski, Lilly Wachowski (EUA, 1996, 109’)
High Art, Lisa Cholodenko (EUA, 1998, 102’)
Programa 5:
L’homme blessé / The Wounded Man, Patrice Chéreau (França, 1983, 119’)
Taxi to the Toilet / Taxi zum Klo, Frank Ripploh (Alemanha Ocidental, 1980, 90’)
Programa 6:
Black Is... Black Ain’t, Marlon T. Riggs (EUA, 1995, 87’)
Spin Cycle, Aarin Burch (EUA, 1991, 6’)
The Watermelon Woman, Cheryl Dunye (EUA, 1996, 90’)
Programa 7:
Greetings from Washington, D.C., Lucy Winer (EUA, 1981, 28’)
The Lesbian Avengers Eat Fire, Too, Su Friedrich, Janet Baus (EUA, 1993, 56’)
Zero Patience, John Greyson (Reino Unido, Canadá, 1993, 100’)
SESSÕES ESPECIAIS
Amarga Navidad / Natal Amargo, Pedro Almodóvar (Espanha, 2026, 112’)
Teenage Sex and Death at Camp Miasma / Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun (EUA, Canadá, 2026, 112’)
PANORAMA
Barbara Forever, Brydie O’Connor (EUA, 2026, 102’)
Blue Film, Elliot Tuttle (EUA, 2025, 85’)
Jim Queen, Marco Nguyen, Nicolas Athané (França, 2026, 85’)
Maspalomas, Jose Mari Goenaga, Aitor Arregi (Espanha, 2025, 109’)
Prosecution, Faraz Shariat (Alemanha, 2026, 113’)
Un jeune homme de bonne famille / A Very Good Boy, Sébastien Lifshitz (França, 2026, 87’)