
Os Festivais anunciam algum destaques dos seus programas, nomeadamente os Filmes de Abertura e Encerramento de Lisbao, e o de Abertura de Porto, para além das Sessões Especiais de Lisboa e de um acrescento especial à secção Panorama de Lisboa:
QUEER PORTO: FILME DE ABERTURA
Estreado mundialmente em fevereiro passado na Berlinale, na nova secção Perspectives, a abertura do Queer Porto é feita com Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques. Cinema dentro do cinema, a história acompanha João, uma atriz lisboeta, que protagoniza um filme histórico biográfico sobre Liberada, uma jovem dissidente de género perseguida pela Inquisição. Paula Tomás Marques, nesta sua primeira longa-metragem, retoma a sua premissa de reescrever a história através de uma ótica queer e fazer justiça às suas figuras, recuando a tempos passados, nomeadamente reinterpretando e reapropriando figuras dissidentes de género perseguidas ou julgadas na inquisição, como já o havia feito nas suas curtas When We Dead Awaken (2022) e Dildotectónica (2023). Feito quase sem apoios, este é também um filme imbuído de um forte sentido de comunidade, trazendo a si um conjunto de artistas e performers trans, como June João (também co-argumentista), André Tecedeiro, Jenny Larrue, Alice Azevedo, Caio Amado, Eloísa d'Ascensão ou Tiago Aires Lêdo, que oferecem uma poderosa dimensão identitária e de autoficção a uma obra que é já um marco no cinema português.
QUEER LISBOA: FILME DE ABERTURA
Chegado diretamente de Sundance, as honras de filme de abertura do Queer Lisboa cabem a Plainclothes, a auspiciosa longa-metragem de estreia do norte-americano Carmen Emmi. A ação passa-se nos anos 90, numa pacata Syracuse do norte do Estado de Nova Iorque. Lucas (interpretado por Tom Blyth) é um jovem polícia cuja missão diária implica armar emboscadas a homens homossexuais nos WCs de um centro comercial, onde conhece Andrew (Russell Tovey), por quem se apaixona. Plainclothes trata-se de uma narrativa elegantemente escrita, história de amor com forte matriz social, passada numa década abalada pelo VIH/sida. A esta empática história, Emmi adiciona uma densidade estética, invocando esses tempos da camcorder e do VHS, que densificam os corpos de Blyth e Tovey – magistrais nos seus papéis –, citando ainda essas imagens já históricas dos anos 50 das emboscadas de Mansfield, no Ohio (recuperadas pelo cineasta William E. Jones), resultando num filme imerso em nostalgia, e de uma coesão rara, que ainda assim não deixa de ousar experimentar.
QUEER LISBOA: FILME DE ENCERRAMENTO
A noite de encerramento deste ano do Queer Lisboa é feita com a exibição de um impressionante e comovente documentário, o Between Goodbyes, de Jota Mun. Em meados dos anos 50, a Coreia do Sul implementou um programa internacional de adoção para integrar os seus órfãos de guerra. Décadas mais tarde, a propaganda de controle demográfico do país afirma que “dois já é demasiado”, e pressiona as famílias pobres a entregarem as suas crianças, sobretudo se lhes nascerem do género feminino. Mieke seria a quarta filha da família. Cresceu na Holanda, perdeu cedo os pais adotivos, pôde reconhecer-se queer e casar com outra mulher. Os esforços da sua família de origem sul-coreana permitem uma aproximação que será marcada por dúvidas, descargas emocionais, e pela demorada mitigação da culpa. Mun, cuja história pessoal é também marcada por um processo adotivo semelhante em bebé, constrói este documentário sensível e de profunda pesquisa, que é também um instrumento de comunicação entre os membros da família. Cirúrgico e responsável, o filme faz a crónica da pacificação possível, sem esquecer a denúncia de práticas adotivas que degeneraram em negócio, com o Ocidente a lavar a consciência e a Coreia do Sul a enriquecer os cofres do Estado.
QUEER LISBOA: SESSÕES ESPECIAIS
Celebrizado muito jovem, em França, pela sua interpretação em Les roseaux sauvages (1994), de André Techiné, quase em paralelo Gaël Morel começa a realizar, sendo a temática queer uma presença constante no seu trabalho. Estreado em 2024 em Cannes, com Vivre, mourir, renaître Morel regressa à ficção, um mergulho num delicado e complexo tema ligado ao VIH/sida. O que acontece quando te preparas para a morte e aprendes que afinal tens uma vida – até talvez longa – pela frente? É na Paris dos anos 90, que o tri-casal composto por Emma, Sammy e Cyril, seropositivos, vivem os anos mais complicados da epidemia e depois a chegada da triterapia que lhes abre a esperança da vida. Entre a sobrevivência de uns e a morte dos que não chegaram a esse ano charneira de 1996, Morel constrói uma narrativa de forte pendor metafísico, sobre o que passa a ser a vida depois de um anúncio de morte. Apresentada como sessão especial, esta exibição é dedicada à memória de Pedro Silvério Marques, ativista na área do VIH, falecido em março último.
Igualmente exibida em sessão especial, apresenta-se Morte e Vida Madalena (na imagem), de Guto Parente, uma co-produção brasileira com a portuguesa C.R.I.M, estreada na mais recente edição do FID Marseille. O filme acompanha os passos da sua protagonista, uma produtora de cinema, grávida de oito meses, e prestes a rodar um filme de ficção científica de baixo orçamento, escrito pelo seu pai, recentemente falecido. Quando Davi, o realizador do filme e seu ex-marido, desaparece misteriosamente do set, Madalena precisa de fazer tudo o que puder para terminar o filme antes do nascimento do bebé. Sob esta premissa, Guto Parente assina a sua homenagem ao cinema precário e artesanal, feito entre amigos, longe das fórmulas da indústria; um tipo de cinema com um encanto especial, mas difícil de levar avante. Regado com esse humor tipicamente brasileiro que é arma de sobrevivência, o dispositivo escolhido é o da comédia, com uma fabulosa interpretação de Noá Bonoba. O filme é também a celebração de uma comunidade artística nas margens da sociedade, da sua resiliência e compromisso. Parente regressa ao festival para apresentação do seu filme.
QUEER LISBOA: PANORAMA
Chegado diretamente da última edição do Festival de Cannes, o festival acrescenta à sua secção Panorama a longa-metragem britânica Pillion, de Harry Lighton. Psicodrama com inteligentes laivos de humor, o filme é um arriscado mergulho no universo gay do fetiche e do BDSM, centrando-se sobretudo na dinâmica entre mestre e submisso, procurando perceber se o amor é possível dentro desta estrita hierarquização feita de desequilíbrios entre as partes. Não é fácil explorar este universo algo secreto sem cair em estereótipos, mas Lighton sucede em fazê-lo. O segredo não está tanto nos diálogos, mas nos silêncios e nuances das magníficas interpretações de Harry Melling e Alexander Skarsgård. Colin (Melling) canta num grupo a cappella num pub, onde conhece Ray (Skarsgård), um enigmático motoqueiro. Para estar com Ray, Colin tem de aprender a submissão e a amar dentro dessa dinâmica. É aqui que habilmente o filme estrutura Colin entre o contexto familiar dos pais e aquele outro de uma comunidade de submissos, seus iguais. Frente ao quase sempre inquebrantável Ray, é Colin quem se transforma e nos ensina que a submissão pode ser um lugar de poder.
Novos títulos anunciados:
NOITE DE ABERTURA / QUEER LISBOA 29
Plainclothes, Carmen Emmi (EUA, 2025, 95’)
NOITE DE ENCERRAMENTO / QUEER LISBOA 29
Between Goodbyes, Jota Mun (EUA, Coreia do Sul, 2024, 96’)
SESSÕES ESPECIAIS / QUEER LISBOA 29
Morte e Vida Madalena, Guto Parente (Brasil, Portugal, 2025, 85’)
Vivre, mourir, renaître, Gaël Morel (França, 2024, 109’)
PANORAMA / QUEER LISBOA 29
Pillion, Harry Lighton (Reino Unido, 2025, 106’)
NOITE DE ABERTURA / QUEER PORTO 11
Duas Vezes João Liberada, Paula Tomás Marques (Portugal, 2025, 70’)